Mesmo com indicadores de redução no Maranhão, casos recentes chocam o país e escancaram falhas estruturais na proteção às mulheres
O Brasil voltou a assistir, nas últimas semanas, a cenas que escancaram uma realidade brutal: a violência contra mulheres segue viva, cotidiana e, muitas vezes, naturalizada. O vídeo de uma jovem sendo atropelada e arrastada pelo próprio namorado em plena Marginal Tietê, em São Paulo, e a prisão do influenciador conhecido como “Calvo do Campari” por agressão à companheira reacenderam um debate urgente — até quando o país continuará reagindo apenas depois que o pior acontece?
Esses episódios não são isolados. Eles compõem um cenário nacional em que o feminicídio permanece como uma das faces mais cruéis da violência de gênero. Enquanto dados oficiais apontam avanços pontuais em alguns estados, como o Maranhão, especialistas alertam: reduzir números não significa resolver o problema.
Um país que perde mulheres todos os dias
O feminicídio é definido como o assassinato de mulheres em razão do gênero, geralmente associado à violência doméstica, relações abusivas, controle e histórico de agressões. No Brasil, os números mantêm um patamar alarmante.
Levantamentos recentes indicam que o país registra, em média, quatro feminicídios por dia. São mais de mil mulheres mortas por ano apenas por serem mulheres — um dado que se repete, com pequenas variações, nos últimos cinco anos. Em muitos desses casos, o agressor é alguém próximo: companheiro, ex-companheiro ou familiar.
Especialistas ressaltam que os números oficiais ainda podem ser maiores. A subnotificação, erros de classificação e investigações inconclusas fazem com que muitas mortes violentas de mulheres não sejam enquadradas formalmente como feminicídio.
Maranhão: queda nos números, mas alerta ligado
No Maranhão, dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública apontam redução nos casos de feminicídio em 2025, resultado atribuído ao fortalecimento de operações policiais, campanhas de conscientização e maior celeridade no cumprimento de mandados de prisão. Em determinados períodos, o estado registrou diminuição superior a 10% em comparação com anos anteriores.
A Assembleia Legislativa do Maranhão também tem destacado essas estatísticas como reflexo de políticas de enfrentamento à violência doméstica, inclusive com maior integração entre Poder Judiciário, forças de segurança e rede de atendimento às mulheres.
No entanto, defensores dos direitos das mulheres alertam que a análise fria dos números pode mascarar a realidade. “A queda estatística não elimina o medo cotidiano, nem o risco constante vivido por mulheres que denunciam”, afirmam representantes de coletivos feministas no estado.
Além disso, organizações sociais chamam atenção para o fato de que boa parte das vítimas já havia registrado boletins de ocorrência ou solicitado medidas protetivas, o que indica falhas no acompanhamento desses casos.
Casos recentes que revoltam o país
A comoção nacional registrada nas últimas semanas tem nome e rosto — e imagens que chocaram milhões de brasileiros.
Em São Paulo, uma jovem foi atropelada e arrastada por vários metros após uma discussão com o namorado. O caso, enquadrado como tentativa de feminicídio, ganhou repercussão nacional depois que vídeos da agressão circularam nas redes sociais. A violência explícita gerou protestos, mobilização de movimentos de mulheres e pressão por punição exemplar.
Outro episódio que chamou atenção foi a prisão do influenciador digital conhecido como “Calvo do Campari”. Com milhares de seguidores, ele foi detido por agressão contra a namorada. Apesar da prisão em flagrante, o influenciador foi liberado após audiência de custódia, mediante medidas protetivas — decisão que gerou ampla discussão pública sobre impunidade, celebrização da violência e o papel das redes sociais.
Para especialistas, a exposição midiática desses casos revela um paradoxo: ao mesmo tempo em que causa indignação, também evidencia como a violência só ganha atenção quando envolve imagens chocantes ou pessoas públicas.
O que dizem os políticos
Diante da pressão social, autoridades têm se manifestado. No plano nacional, o Ministério das Mulheres voltou a defender a implementação de um Plano Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio, com foco em prevenção, educação e fortalecimento da rede de proteção.
No Congresso Nacional, relatórios recentes do Observatório da Mulher no Senado apontam que o Brasil ainda carece de políticas integradas e de um sistema unificado de dados sobre violência de gênero. Parlamentares defendem mudanças que vão desde o aprimoramento das medidas protetivas até maior rigor no acompanhamento de agressores reincidentes.
No Maranhão, representantes do Executivo estadual afirmam que o estado tem avançado no combate à violência doméstica, destacando investimentos em policiamento, qualificações para agentes públicos e campanhas permanentes de conscientização. Parlamentares maranhenses, por sua vez, cobram ampliação das Delegacias da Mulher, especialmente no interior, e maior estrutura para casas de acolhimento.
Onde o sistema falha
Apesar das leis existentes — como a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio no Código Penal — especialistas apontam gargalos recorrentes:
- Demora na concessão de medidas protetivas
- Falta de fiscalização do cumprimento dessas medidas
- Escassez de abrigos seguros para mulheres em risco
- Dependência econômica das vítimas em relação aos agressores
- Cultura de naturalização da violência doméstica
No Maranhão, esses desafios se agravaram historicamente em municípios mais afastados da capital, onde o acesso à rede de proteção é limitado e o silêncio ainda impera por medo, vergonha ou dependência.
O papel da sociedade e da imprensa
Para além do Estado, a sociedade tem um papel central no enfrentamento ao feminicídio. Especialistas defendem que a mudança real passa por educação, transformação cultural e responsabilização coletiva.
Nesse contexto, a imprensa é peça-chave. Cobrir feminicídios vai além de relatar crimes: é contextualizar, cobrar políticas públicas, dar voz às vítimas e orientar a população sobre como denunciar.
Jornalistas e veículos de comunicação são orientados a evitar a espetacularização da violência, não romantizar relações abusivas e sempre destacar canais de ajuda.
Canais de apoio e denúncia
Mulheres em situação de violência podem buscar ajuda por meio da Central de Atendimento à Mulher — Disque 180, que funciona 24 horas, gratuitamente. No Maranhão, Delegacias Especializadas da Mulher e Centros de Referência oferecem atendimento psicológico, jurídico e social.
Denunciar é o primeiro passo. Ignorar, silenciar ou minimizar pode custar vidas.
